segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A cor do dinheiro

Alguns dos que insinuaram ligações accionistas do presidente da República à rápida promulgação da nacionalização do BPN foram os mais lestos a encontrar vestígios conspirativos no tratamento noticioso do “Freeeport”. Só a criação desta ficção justifica que até Henrique Monteiro tenha escrito no Expresso: “sempre que Santana avança saltam processos mais ou menos estranhos que o envolvem. E agora, saltou de novo o caso 'Freeport', que anda desde 2004 a ser investigado. Mais uma vez irrompeu num ano eleitoral. Posso estar a ser injusto e a induzir conclusões que não são válidas. Mas é sinceramente o que me parece acontecer neste país desgraçado.”
Assim como a maioria da opinião publicada, próxima do PS, desvirtuou o debate do caso “BPN”, afastando-o do problema fundamental das deficiências na supervisão financeira, também no caso “Freeport” tenta criar um cenário de cabala (após a ensaiada desvalorização inicial), sugerindo inclusive que as suas motivações são eleitorais, à semelhança de outras que envolveram o primeiro-ministro neste mandato e em que o PSD surge inevitavelmente como principal interessado. Omite-se o essencial do caso: os fortes indícios de corrupção e o rasto do dinheiro.
O primeiro-ministro sabe que os dirigentes do PSD, sensatamente, não farão comentários sobre meras presunções nem assumirão posições que possam prejudicar o desenvolvimento das investigações, o que o acabará por beneficiar enquanto a situação for tratada no plano da justificação política. É neste plano que entra a habitual “gritaria” vitimizante de José Sócrates e sobre a qual escreve de forma certeira o António Ribeiro Ferreira no Correio da Manhã.
Também hoje, porque não estava em causa justificar pessoalmente as suas habilitações académicas, delegou no ministro da presidência a criação de ruído na comunicação social. Silva Pereira veio “esclarecer os portugueses” sobre a sua versão, em entrevista à SIC. A ladainha durou vinte minutos até Mário Crespo, cansado do exercício, resolver colocar um conjunto de questões pertinentes e objectivas (porque é que um ministro com competências delegadas foi a uma reunião decidir um projecto tão sectorial? em que data foi a reunião? a secretária era prima do ministro do Ambiente? havia troca de favores por dinheiro?), que não tiveram resposta do ministro, por as considerar um insulto… Afinal, tinha-se preparado para o habitual tempo de antena e não propriamente para responder a perguntas que não estivessem previstas no guião.
E já que Silva Pereira se mostrou hábil no “jogo de palavras”, uma simples dúvida: porque é que na conferência de imprensa José Sócrates se referiu ao “primo” como o “filho do tio”?

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