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quarta-feira, 4 de junho de 2008

La vie en rose

Acabo de ver Ana Benavente justificar em directo à SIC-Notícias a sua participação no comício da esquerda: “Não há espaço dentro do PS para discutir as desigualdades sociais. O secretário-geral limita-se a dar umas missas”. Este é o problema do PS. O discurso não coincide com a prática e começa a ser difícil aliviar a tensão existente nas sensibilidades mais à esquerda no interior do PS, mesmo depois dos remendos aplicados na remodelação governamental. A perturbação de ver Manuel Alegre participar no comício (ou na festa, de acordo com uma designação mais recente e moderada), onde os principais dirigentes do Bloco de Esquerda pontificam, já ultrapassou Vitalino Canas, atingindo algumas almas que não se mostraram incomodadas no passado recente com a coabitação de José Sá Fernandes na câmara de Lisboa ou com o facto de Joana Amaral Dias, também do BE, ter sido mandatária de Mário Soares nas presidenciais.
E reduzir esta participação a um mero calculismo político de Alegre na preparação da próxima corrida presidencial é demasiado arriscado, apesar deste colher dividendos óbvios em cavalgar a onda generalizada de descontentamento. Pelos vistos, ninguém ligou ou não quis ligar aos desabafos de Mário Soares escritos há poucos dias em artigo de opinião no DN, onde repetiu o alerta: "Quem vos avisa vosso amigo é." Há que avançar rapidamente - e com acerto - na resolução destas questões essenciais, que tanto afectam a maioria dos portugueses. Se o não fizerem, o PCP e o Bloco de Esquerda - e os seus lideres - continuarão a subir nas sondagens. Inevitavelmente. É o voto de protesto, que tanta falta fará ao PS em tempo de eleições. E mais sintomático ainda: no debate televisivo da SIC que fizeram os quatro candidatos a Presidentes do PPD/PSD, pelo menos dois deles só falaram nas desigualdades sociais e na pobreza, que importa combater eficazmente. Poderá isso relevar - dirão alguns - da pura demagogia. Mas é significativo. Do que sentem os portugueses. Não lhes parece?...

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

As in(Directas)

Ainda mal tinham acabado de ser conhecidos os resultados provisórios das eleições internas do PSD (pouco depois das zero horas de Sábado) e fechadas as edições mais retardadas dos Semanários (por volta das duas da manhã) e já os seus leitores eram surpreendidos na mesma manhã com comentários catastróficos sobre o método da eleição directa. Ou seja, as directas eram boas com Luís Marques Mendes e passaram a ser más com a vitória de Luís Filipe Menezes. E os jornalistas de serviço, em pouco mais de uma hora recolheram e publicaram depoimentos ou supostas opiniões bastante críticas de quase uma dezena de notáveis, ausentes da noite eleitoral…
Já ontem foi dado enorme relevo noticioso a um comentário do ex-presidente da república, Mário Soares, sobre uma alegada desgraça que tinha acontecido ao PSD, a propósito da disputa eleitoral. Rapidamente, os jornalistas de serviço descontextualizaram a afirmação e entenderam que a “desgraça” só poderia assentar no desfecho da contenda e, obviamente, no recém-eleito presidente, Luís Filipe Menezes. O empolamento da notícia justificaria mesmo um desmentido pessoal de Mário Soares à Agência Lusa, antes das 19 horas, reiterando que se referiu ao processo e não ao vencedor, divulgando inclusive que já tinha felicitado pessoalmente o novo presidente do PSD e justificado as suas palavras. Nos principais noticiários da noite, em horário nobre, o desmentido foi completamente omitido das várias peças televisivas, só tendo começado a ser veiculado no final da noite nos últimos blocos noticiosos…
Hoje, já começámos a assistir à escalada do folhetim da permanência ou abandono da Câmara de Gaia, à dissecação da análise dominical de Marcelo Rebelo de Sousa e às provas públicas de fidelidade dos líderes das distritais derrotadas, perante a interpelação dos jornalistas. E, ainda, o novo presidente do PSD não abriu a boca, depois do discurso da noite eleitoral. Espero, pois, que esta contenção inicial venha a constituir uma imagem de marca do seu mandato, visto que os primeiros dois dias revelam que não só não vai ter a vida facilitada como as duas semanas que faltam até ao Congresso Nacional poderão tornar-se demasiado longas.