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quinta-feira, 23 de abril de 2009

O denominador comum

Manuel Alegre considerou hoje no programa especial da Quadratura do Círculo, que a criação de um novo partido seria uma forma de “dar uma lição aos partidos, que necessitam de se renovar e de responder aos anseios da sociedade civil”.
Há dois anos a frase de Alegre seria provavelmente reduzida a mais um arrufo do poeta, no interior do PS. Dita hoje, nas vésperas do 25 de Abril de 2009, soa demasiado ao diagnóstico da doença que atinge transversalmente o sistema partidário português.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

La vie en rose

Acabo de ver Ana Benavente justificar em directo à SIC-Notícias a sua participação no comício da esquerda: “Não há espaço dentro do PS para discutir as desigualdades sociais. O secretário-geral limita-se a dar umas missas”. Este é o problema do PS. O discurso não coincide com a prática e começa a ser difícil aliviar a tensão existente nas sensibilidades mais à esquerda no interior do PS, mesmo depois dos remendos aplicados na remodelação governamental. A perturbação de ver Manuel Alegre participar no comício (ou na festa, de acordo com uma designação mais recente e moderada), onde os principais dirigentes do Bloco de Esquerda pontificam, já ultrapassou Vitalino Canas, atingindo algumas almas que não se mostraram incomodadas no passado recente com a coabitação de José Sá Fernandes na câmara de Lisboa ou com o facto de Joana Amaral Dias, também do BE, ter sido mandatária de Mário Soares nas presidenciais.
E reduzir esta participação a um mero calculismo político de Alegre na preparação da próxima corrida presidencial é demasiado arriscado, apesar deste colher dividendos óbvios em cavalgar a onda generalizada de descontentamento. Pelos vistos, ninguém ligou ou não quis ligar aos desabafos de Mário Soares escritos há poucos dias em artigo de opinião no DN, onde repetiu o alerta: "Quem vos avisa vosso amigo é." Há que avançar rapidamente - e com acerto - na resolução destas questões essenciais, que tanto afectam a maioria dos portugueses. Se o não fizerem, o PCP e o Bloco de Esquerda - e os seus lideres - continuarão a subir nas sondagens. Inevitavelmente. É o voto de protesto, que tanta falta fará ao PS em tempo de eleições. E mais sintomático ainda: no debate televisivo da SIC que fizeram os quatro candidatos a Presidentes do PPD/PSD, pelo menos dois deles só falaram nas desigualdades sociais e na pobreza, que importa combater eficazmente. Poderá isso relevar - dirão alguns - da pura demagogia. Mas é significativo. Do que sentem os portugueses. Não lhes parece?...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Alegre, mas pouco.

Manuel Alegre continua num dilema. Por um lado, quer continuar a deter o estatuto mediático e o peso eleitoral que a última eleição presidencial lhe conferiu, mas sem assumir qualquer tipo de compromisso com os seus eleitores, conforme revela a entrevista que hoje deu ao diário Público. Por outro, pretende ocupar o espaço das preocupações sociais no interior do PS, que segundo ele não fazem parte da agenda do Governo, mas sem consequências políticas de maior na disputa interna da "nomenclatura" socialista. Entretanto, vai patrocinando reuniões com grupos de militantes para discutir "o que é ser socialista".
Alguns dos excertos da entrevista:

"Com o PS passa-se muito pouca coisa. Com o PS e com a nossa democracia (...) O que é hoje o PS? Ainda há socialismo no PS? Ainda se fala de socialismo? Ainda se fala de soluções alternativas? Ou, como dizia o general, as pessoas hoje estão nos partidos mais para resolverem os seus problemas pessoais do que por ideologia? (...) Claro que já não me revejo neste PS. O que não quer dizer que este PS não tenha socialistas ou que entre aqueles que votam e apoiam o PS não haja muitos socialistas. Mas num partido político há vários níveis, o das estruturas dirigentes, o das estruturas intermédias, as bases e ainda há os votantes. Aquilo que eu chamei de nomenclatura, bem, hoje é uma coisa impenetrável (...) Penso que o papel dos socialistas é criar soluções alternativas. É fazer as reformas no sentido de garantir a viabilidade e de reforçar os serviços públicos, não de os esvaziar, como é hoje a receita única (...) Houve 1.130.000 pessoas que votaram em mim. Mas, como em qualquer eleição, os votos diluem--se depois da eleição. Não ando com aqueles votos à trela. Isso cria uma responsabilidade."

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

O Medo da Rosa

Tal como nos vamos habituando, a opinião publicada não deu devido destaque ao recente artigo “Contra o medo, liberdade”, de Manuel Alegre, no diário “Público” (o primeiro-ministro, pelo contrário, encarregou-se de uma lamentável tentativa de desacreditação pessoal de Manuel Alegre a um canal de televisão). Neste artigo de opinião, o deputado socialista resume de forma assinalável o clima de temor e de cerceamento da liberdade, com que os portugueses convivem, rematando com a constatação da ausência de alternativas na actual conjuntura. O que não sendo novidade, serve de aviso à navegação para os dois principais partidos com ambição governativa, pelo que considero importante transcrever algumas das suas passagens:

“Não posso ficar calado perante alguns casos ultimamente vindos a público. Casos pontuais, dir-se-á. Mas que têm em comum a delação e a confusão entre lealdade e subserviência. Casos pontuais que, entretanto, começam a repetir-se (...) Na campanha do penúltimo congresso socialista, em 2004, eu disse que havia medo. Medo de falar e de tomar livremente posição. Um medo resultante da dependência e de uma forma de vida partidária reduzida a seguir os vencedores (nacionais ou locais) para assim conquistar ou não perder posições (ou empregos). Medo de pensar pela própria cabeça, medo de discordar, medo de não ser completamente alinhado (...) A tradição governamentalista continua a imperar em Portugal. Quando um partido vai para o Governo, este passa a mandar no partido que, pouco a pouco, deixa de ter e manifestar opiniões próprias. A crítica é olhada com suspeita, o seguidismo transformado em virtude.
O que ponho em causa é a redução da política à sua pessoa (José Sócrates). Responsabilidade dele? A verdade é que não se perfilam, por enquanto, nenhumas alternativas à sua liderança. Nem dentro do PS nem, muito menos, no PSD. Ora isto não é bom para o próprio Sócrates, para o PS e para a democracia. Porque é em situações destas que aparecem os que tendem a ser mais papistas que o Papa. E sobretudo os que se calam, os que de repente desatam a espiar-se uns aos outros e os que por temor, veneração e respeitinho fomentam o seguidismo e o medo.

Há mais vida para além das lógicas de aparelho. Se os principais partidos não vão ao encontro da vida, pode muito bem acontecer que a recomposição do sistema se faça pelo voto dos cidadãos. Tanto no sentido positivo como negativo, se tal ocorrer em torno de uma qualquer deriva populista. Há sempre esse risco. Os principais inimigos dos partidos políticos são aqueles que, dentro deles, promovem o seu fechamento e impedem a mudança e a abertura.”