quarta-feira, 1 de agosto de 2007

O Medo da Rosa

Tal como nos vamos habituando, a opinião publicada não deu devido destaque ao recente artigo “Contra o medo, liberdade”, de Manuel Alegre, no diário “Público” (o primeiro-ministro, pelo contrário, encarregou-se de uma lamentável tentativa de desacreditação pessoal de Manuel Alegre a um canal de televisão). Neste artigo de opinião, o deputado socialista resume de forma assinalável o clima de temor e de cerceamento da liberdade, com que os portugueses convivem, rematando com a constatação da ausência de alternativas na actual conjuntura. O que não sendo novidade, serve de aviso à navegação para os dois principais partidos com ambição governativa, pelo que considero importante transcrever algumas das suas passagens:

“Não posso ficar calado perante alguns casos ultimamente vindos a público. Casos pontuais, dir-se-á. Mas que têm em comum a delação e a confusão entre lealdade e subserviência. Casos pontuais que, entretanto, começam a repetir-se (...) Na campanha do penúltimo congresso socialista, em 2004, eu disse que havia medo. Medo de falar e de tomar livremente posição. Um medo resultante da dependência e de uma forma de vida partidária reduzida a seguir os vencedores (nacionais ou locais) para assim conquistar ou não perder posições (ou empregos). Medo de pensar pela própria cabeça, medo de discordar, medo de não ser completamente alinhado (...) A tradição governamentalista continua a imperar em Portugal. Quando um partido vai para o Governo, este passa a mandar no partido que, pouco a pouco, deixa de ter e manifestar opiniões próprias. A crítica é olhada com suspeita, o seguidismo transformado em virtude.
O que ponho em causa é a redução da política à sua pessoa (José Sócrates). Responsabilidade dele? A verdade é que não se perfilam, por enquanto, nenhumas alternativas à sua liderança. Nem dentro do PS nem, muito menos, no PSD. Ora isto não é bom para o próprio Sócrates, para o PS e para a democracia. Porque é em situações destas que aparecem os que tendem a ser mais papistas que o Papa. E sobretudo os que se calam, os que de repente desatam a espiar-se uns aos outros e os que por temor, veneração e respeitinho fomentam o seguidismo e o medo.

Há mais vida para além das lógicas de aparelho. Se os principais partidos não vão ao encontro da vida, pode muito bem acontecer que a recomposição do sistema se faça pelo voto dos cidadãos. Tanto no sentido positivo como negativo, se tal ocorrer em torno de uma qualquer deriva populista. Há sempre esse risco. Os principais inimigos dos partidos políticos são aqueles que, dentro deles, promovem o seu fechamento e impedem a mudança e a abertura.”

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