quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Jamais (leia em francês)

O ministro das Obras Públicas, Mário Lino, afirmou no final de um almoço promovido pela Ordem dos Economistas sobre a Ota, que "a margem sul é um deserto" e por isso seria "uma obra faraónica" fazer aí o futuro aeroporto de Lisboa. "Na margem sul não há cidades, não há gente, não há hospitais, nem hotéis nem comércio", disse o governante, acrescentando que, de acordo com um estudo recente, "seria necessário deslocar milhões de pessoas" para essa zona para justificar a construção do novo aeroporto.Segundo Mário Lino, fazer um aeroporto no Poceirão ou nas Faias seria o mesmo "que construir Brasília no Alto Alentejo." (diário Público, 23.05.07)

Retomar o processo relativo ao novo Aeroporto da Ota, redefinindo o respectivo calendário à luz dos dados actuais sobre o desenvolvimento expectável do tráfego e tendo em conta a disponibilidade de financiamento comunitário para a programação do projecto.” (Programa do XVII Governo Constitucional)

Os partidos políticos na oposição e as associações empresariais infligiram uma derrota ao Governo na localização do novo Aeroporto, corporizando o sentimento colectivo do país. Dir-se-á que foi uma meia vitória, visto que este anúncio, cirurgicamente planeado pelo Governo, quase enterrou o tema do referendo europeu. Também impressionou a forma pesarosa como Mário Lino participou, lado a lado com o primeiro-ministro, na conferência de imprensa subsequente ao conselho de ministros. Não me pareceu que tivesse sido desautorizado, mas antes que a sua utilização pública na defesa dos interesses do Governo não lhe permitiu sair-se deste resultado de forma mais airosa e menos humilhante, pela entrega e pelo excesso utilizados na defesa de Ota. Daí a explicação cuidada do primeiro-ministro sobre as infelizes intervenções do ministro, demonstrando que o titular das Obras Públicas não será dos primeiros a ser remodelado, visto ainda ser credor dos favores prestados ao governo.
O óptimo é inimigo do bom e Alcochete, que foi violentamente descaracterizada nos últimos nove anos, abandonando o cariz rural e crescendo desordenadamente, sofrerá agora um impacto mais agressivo, como consequência do novo aeroporto. Mas não restam dúvidas de que esta solução se torna menos dispendiosa ao país, com um prazo de construção mais curto, menos dispendioso, com garantia de maior duração e expansão e com menor impacto nas populações residentes do que a alternativa de Ota. Importará agora debater o modelo de aeroporto a construir, o interface com a rede ferroviária de alta velocidade, o futuro alternativo da Portela e atenuar os impactos ambientais no estuário do Tejo.
No âmbito desta decisão não se deveria desperdiçar a oportunidade de repensar o investimento no TGV, assim como discutir a estratégia futura para os portos de Lisboa e Setúbal, de forma integrada.
Uma última referência para o facto de o Governo em apenas dois dias, em duas decisões importantes, ter contrariado o conteúdo do seu programa, na linha daquilo a que nos vai habituando. Por curiosidade, duas decisões em que acabou por acompanhar a vontade expressa do presidente da república.

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