quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Ética da Responsabilidade

Como já aqui escrevi, ontem, antecipava-se um argumento criativo para justificar a cambalhota na defesa do referendo europeu, mas invocar a “ética da responsabilidade” para não referendar o tratado e ainda defender que seria vantajoso para o executivo ir a votos numa consulta sobre a União Europeia, como fez José Sócrates na Assembleia da República, transcende as balizas da imaginação.
Veio o primeiro-ministro, conforme se esperava, sublinhar que “não existe qualquer compromisso eleitoral de fazer uma consulta sobre o Tratado de Lisboa”, cujo conteúdo será, segundo ele, diferente do conteúdo do Tratado Constitucional da União Europeia. Mas não foi o mesmo quem defendeu serem ambos fundamentais para a construção europeia e no essencial semelhantes?
Assinalou, igualmente, que existe uma ampla maioria em Portugal a favor do projecto europeu e que a realização do referendo em Portugal teria implicações negativas noutros Estados-Membros. Pergunta-se onde? Na Eslovénia, onde o seu primeiro-ministro, Janez Jansa, que agora preside ao Conselho Europeu, desaconselhou os seus parceiros a optarem pelo referendo? Ou nos países de Ângela Merkel, Nicolas Sarkozy e Gordon Brown, que oportunamente fizeram sentir a sua posição sobre a forma de ratificar o tratado? Penso que o primeiro caso é revelador do peso real que Portugal detém no seio da União Europeia; o segundo terá ajudado a mistificar as circunstâncias que, supostamente, ditaram a alteração da posição de Portugal, pois penso que a decisão estava tomada há muito, aguardando apenas o tempo certo e a justificação conveniente para ser anunciada. Um passo que começou a ser dado na tese alarmista, lançada há dias de que estaria na eminência a decisão e que esta seria favorável à realização do referendo...
Na realidade, a forma ligeira como o nosso primeiro-ministro nega as suas promessas eleitorais e contradita as suas próprias afirmações em matérias de interesse nacional faz lembrar a frase publicitária de Pessoa: “primeiro estranha-se, depois entranha-se”!

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