Ao forçar a sua saída do Governo, Amaral Tomaz acabou por precipitar a mini- remodelação de José Sócrates. Não era sustentável substituir o secretário dos Assuntos Fiscais e manter intocável o titular da Saúde, objecto da maior vaga de contestação pública. E que desde o discurso de Ano Novo do presidente da república se desdobrava em declarações e aparições sucessivas em todos os programas televisivos de grande audiência, só faltando o Praça da Alegria e o Fátima.Estimulado por algumas vozes que enquadraram o mau momento do ministro nas deficiências de comunicação e não no desacerto da política de saúde, Correia de Campos arrastou-se penosamente num acto autorizado de imolação pública. Os encerramentos das maternidades e das urgências, sem que houvesse um critério claro nas opções tomadas como no caso do Curry Cabral em Lisboa, as sucessivas incompatibilizações com as ordens profissionais dos médicos e enfermeiros, a visão autista que lhe permitiu desvalorizar de forma anedótica as reivindicações dos habitantes de Anadia ou os recentes incidentes de Aveiro e Alijó e o coro de vozes discordantes na ala esquerda do PS, onde se inclui Manuel Alegre, ditaram a sorte do ministro.
Só este excesso de protagonismo do ministro, pela negativa, permitiu que nas últimas duas semanas o presidente do INEM nunca tivesse tido a necessidade de se pronunciar publicamente sobre a deficiente articulação com as corporações de bombeiros.
Depois deste percurso já ninguém recorda o conflito inicial de Correia de Campos com o presidente da associação nacional de farmácias ou a atitude desesperada de apresentar resultados que o levou a negociações em pacote com autarquias maioritariamente socialistas.
O problema que se vislumbra com a alteração verificada, é que a julgar pelas declarações iniciais de Ana Jorge, a orientação política seguida pelo governo na Saúde será para manter, o que conduz ainda a outro problema, de ordem mais local. Como é que a actual titular vai conduzir o dossier do hospital de Loures?
Cultura fictícia?
Idêntica sorte coube à ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, cuja passagem passaria completamente despercebida não fossem as situações de conflito como o despedimento tempestuoso da directora do Museu da Arte Antiga, Dalila Rodrigues, ou as gaffes frequentes como a ausência na homenagem a Miguel Torga ou a ignorância do significado das siglas dos seus institutos.
O caricato da substituição é que o seu sucessor António Pinto Ribeiro acaba por ser destacado na imprensa como advogado dos “Gatos Fedorento” e não como alguém com percurso sustentado na área da cultura. Acrescentar-se-á que foi advogado das “Produções Fictícias” e era actualmente sócio da produtora, além de administrador da Fundação Berardo. E o assunto tornar-se-á mais estimulante se nos lembrarmos que o sócio maioritário das “Produções Fictícias”, Nuno Artur Silva, esteve para ser há duas semanas o director de programas da RTP.
A entrada de Pinto Ribeiro para a cultura adquire assim um sabor de compensação. Será até interessante acompanhar a forma como os animadores do “Contra-informação” irão tratar o “boneco” do seu patrão.
Como alguém referiu Berardo soma e segue e o primeiro-ministro tem a noção de quem lhe tem feito mossa nos últimos tempos. A presente operação de cosmética em que se traduziu a mini-remodelação aponta assim para um “Governo fictício”, o que provavelmente daria um melhor título para este post.







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