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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Oportunismo comercial

Já não há paciência para os truques publicitários ou panfletários de José Saramago. A adaptação cinematográfica do “Ensaio sobre a Cegueira” pelo realizador brasileiro Fernando Meirelles parece ter trazido uma súbita necessidade de continuar a alimentar, sem quebras, o filão comercial da obra do Nobel português. Assistimos assim, posteriormente, à promoção macabra da “Viagem do Elefante” como o provável último livro de Saramago, dada a sua precária situação de saúde. E agora constatamos a polémica gratuita em relação à Bíblia, despoletada e fomentada pelo próprio durante o périplo da promoção do livro “Caim”.
A conhecida falta de fé de Saramago será sempre um problema de âmbito pessoal. A sua má-fé expressa no oportunismo comercial já atinge a sua relação com os leitores.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Portugal em ruínas

O Expresso deste fim-de-semana destaca a preocupante situação de degradação em que se encontra o nosso património. De norte a sul, de este a oeste a lista impressiona, onde se conclui que um terço das 13 classificações de património mundial inscritas na lista da UNESCO estará, actualmente, em risco. E não é mencionado o vasto património menos conhecido ou aquele que entretanto já se perdeu.
O concelho de Loures não foge à regra. Na freguesia de Santa Iria da Azóia, às portas de Lisboa, gera comoção o estado de adiantada degradação do paço rural de Valflores (na foto), imóvel de interesse público e um dos mais representativos exemplos de arquitectura civil quinhentista do distrito, tendo sido construído no século XVI por João de Barros. O desinteresse do município pelo seu mais importante património conduz a que mais dia, menos dia o destino desta casa senhorial se resolva quando assistirmos ao seu desmoronamento.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Governo interrompido

Ao forçar a sua saída do Governo, Amaral Tomaz acabou por precipitar a mini- remodelação de José Sócrates. Não era sustentável substituir o secretário dos Assuntos Fiscais e manter intocável o titular da Saúde, objecto da maior vaga de contestação pública. E que desde o discurso de Ano Novo do presidente da república se desdobrava em declarações e aparições sucessivas em todos os programas televisivos de grande audiência, só faltando o Praça da Alegria e o Fátima.
Estimulado por algumas vozes que enquadraram o mau momento do ministro nas deficiências de comunicação e não no desacerto da política de saúde, Correia de Campos arrastou-se penosamente num acto autorizado de imolação pública. Os encerramentos das maternidades e das urgências, sem que houvesse um critério claro nas opções tomadas como no caso do Curry Cabral em Lisboa, as sucessivas incompatibilizações com as ordens profissionais dos médicos e enfermeiros, a visão autista que lhe permitiu desvalorizar de forma anedótica as reivindicações dos habitantes de Anadia ou os recentes incidentes de Aveiro e Alijó e o coro de vozes discordantes na ala esquerda do PS, onde se inclui Manuel Alegre, ditaram a sorte do ministro.
Só este excesso de protagonismo do ministro, pela negativa, permitiu que nas últimas duas semanas o presidente do INEM nunca tivesse tido a necessidade de se pronunciar publicamente sobre a deficiente articulação com as corporações de bombeiros.
Depois deste percurso já ninguém recorda o conflito inicial de Correia de Campos com o presidente da associação nacional de farmácias ou a atitude desesperada de apresentar resultados que o levou a negociações em pacote com autarquias maioritariamente socialistas.
O problema que se vislumbra com a alteração verificada, é que a julgar pelas declarações iniciais de Ana Jorge, a orientação política seguida pelo governo na Saúde será para manter, o que conduz ainda a outro problema, de ordem mais local. Como é que a actual titular vai conduzir o dossier do hospital de Loures?

Cultura fictícia?

Idêntica sorte coube à ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, cuja passagem passaria completamente despercebida não fossem as situações de conflito como o despedimento tempestuoso da directora do Museu da Arte Antiga, Dalila Rodrigues, ou as gaffes frequentes como a ausência na homenagem a Miguel Torga ou a ignorância do significado das siglas dos seus institutos.
O caricato da substituição é que o seu sucessor António Pinto Ribeiro acaba por ser destacado na imprensa como advogado dos “Gatos Fedorento” e não como alguém com percurso sustentado na área da cultura. Acrescentar-se-á que foi advogado das “Produções Fictícias” e era actualmente sócio da produtora, além de administrador da Fundação Berardo. E o assunto tornar-se-á mais estimulante se nos lembrarmos que o sócio maioritário das “Produções Fictícias”, Nuno Artur Silva, esteve para ser há duas semanas o director de programas da RTP.
A entrada de Pinto Ribeiro para a cultura adquire assim um sabor de compensação. Será até interessante acompanhar a forma como os animadores do “Contra-informação” irão tratar o “boneco” do seu patrão.
Como alguém referiu Berardo soma e segue e o primeiro-ministro tem a noção de quem lhe tem feito mossa nos últimos tempos. A presente operação de cosmética em que se traduziu a mini-remodelação aponta assim para um “Governo fictício”, o que provavelmente daria um melhor título para este post.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Manchester de Luto

Quem acompanhou o fenómeno musical da década de oitenta e da primeira metade da década de noventa assistiu, decerto, ao período mais criativo do final do século passado, para o qual a conhecida vaga de Manchester forneceu, inegavelmente, um forte contributo. Para este surto de criatividade, foram fundamentais o empenho e a inspiração de Tony Wilson, que faleceu esta semana.
Fundador da editora discográfica Factory Records, responsável pela edição de grupos como Joy Division, New Order, Durutti Column e Happy Mondays. E proprietário do mítico clube nocturno e espaço de concertos “Hacienda”, por onde passaram grupos como Smiths e Stone Roses, Tony Wilson patrocinou financeiramente a carreira de alguns grupos na sua fase de arranque e deu visibilidade a outros, que vieram a afirmar-se no panorama musical.
O filme mediano “24 Hour Party People” (onde a personagem principal é o próprio Tony Wilson, interpretado pelo actor Steve Coogan) tem, no entanto, a particularidade de mostrar o seu papel de apaixonado e visionário das novas tendências musicais (os Happy Mondays são um bom exemplo), a inovação e produção cuidada das próprias capas (com a colaboração do designer Peter Saville, que se encontra à sua direita na foto) e a reduzida vocação para questões colaterais à música, revelada como gestor e proprietário do “Hacienda”, que já encerrou há largos anos, tendo dado lugar a um projecto imobiliário.
O ano de 2007 continua, assim, a mostrar-se um ano negro para o panorama cultural europeu.
Para recordar o catálogo da Factory Records, sugere-se:
JOY DIVISION"Love Will Tear Us Apart", "Isolation" e "Athmosphere";
NEW ORDER"Bizarre Love Triangle", "Blue Monday", "World in Motion" e "Regret";
DURUTTI COLUMN - "Sketch for Summer", "Lips That Would Kiss" e "Otis";
HAPPY MONDAYS - "Step On", "W.F.L", "Loose Fit", "Hallelujah" e "Kinky Afro".

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Torga e os Ausentes

Ao contrário da colecção Berardo que está in, Miguel Torga está definitivamente out. Nas cerimónias evocativas do seu centenário, assinaladas de forma digna pela edilidade de Coimbra, o Governo mandou dizer que tinha ido a banhos, fazendo-se representar por um director regional da Cultura.
Depois da presença em peso na tomada de posse de António Costa, os membros do Governo ficaram, porventura, sem agenda para eventos de homenagem às principais figuras da literatura nacional.
António Arnaut, conhecido socialista republicano, entende que "o problema não será de falta de memória, mas de falta de leitura". Poderemos acrescentar que José Sócrates, mais do que o socialismo, meteu Torga na gaveta!...

domingo, 12 de agosto de 2007

Centenário de Torga

Se ainda estivesse entre nós, Miguel Torga completaria hoje 100 anos. Assinalando a data com um dos seus poemas:

"A UM NEGRILHO"

Miguel Torga (1907-1995)

Na terra onde nasci há um poeta.
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.

Esse poeta és tu, mestre da inquietação.
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Solidão na Cidade e Sonho

Ainda sobre o momento da cidade de Lisboa, este bonito poema de Ruy Cinatti (1915-86), intitulado "Solidão na Cidade e Sonho"

“O que eu desejo,
ó luarenta cidade”,
disse o rio,
“é que ninguém te toque.”

Imóvel, paredes mestras
afundando-se na sombra.
Ruas prolongadas,
abertas em campo grande
fechadas em poços negros,
por onde tirita, de febre,
um homem.

Eu, rio apreendido,
captado veio d’água
na rede do espírito
que deambula sem norte.

Qualquer parcela de mim
que pouco a pouco se eleva
no nevoeiro nascente
que do rio sobe
e a cidade cobre.

Nenhum pássaro cantou
na madrugada. Eu corri
contra a força de uma vela,
e tu, árvore imóvel.

Som a tempo, respondi
marulhar d’águas nas folhas
caindo no cais deserto
onde se aproxima um homem.

“O que eu desejo,
ó luarenta cidade”,
disse o rio,
“é que ninguém te toque.”

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

O Fim de Uma Era

Michelangelo Antonioni (1912-2007)


Ingmar Bergman (1918-2007)

Com a morte de Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni – dois dos maiores realizadores do século XX – chega ao fim uma era. Não estando entre os meus realizadores preferidos, não deixo de lhes reconhecer o mérito e de me associar àqueles que lhes rendem homenagem. Os grandes planos e os rostos de Bergman e a cidade e a arquitectura como protagonistas nas películas de Antonioni inspiraram sucessivas gerações de realizadores. O cinema ficou, assim, mais pobre com estas perdas e o mal-amado cinema europeu sofreu um rude golpe. Não que se estivesse há espera de mais alguma obra, mas pelo que significavam para um património que continua a não ver reconhecido o seu real valor.

sábado, 21 de julho de 2007

Desenhos de Bual

Até 9 de Setembro estará patente no Palácio dos Marqueses da Praia, em Loures, uma exposição de desenhos de Artur Bual, conhecido pintor, escultor e ceramista, falecido em 1999. A obra, reconhecidamente relevante, deste artista plástico está presente em importantes museus e colecções, como a do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. Entretanto, foi inaugurada no Museu da Cerâmica, em Sacavém, a exposição interactiva “Lugar de Trabalho, Lugar de Património”, composta por depoimentos de operários fabris (alguns já falecidos), que marcaram a história e a vivência de algumas das principais fábricas da cintura industrial da cidade. A ver durante o próximo ano.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Dar sentido à Argila

Coincidindo com o sétimo aniversário do Museu da Cerâmica, em Sacavém, foi inaugurada a exposição "Dar sentido à Argila", inserida na divulgação dos ateliês de decoração na fábrica da louça de Sacavém.
Desta vez os homenageados são Álvaro Mendes Alves (Alvarito) e Nuno Lopes, dois dos vários artistas que se distinguiram na pintura e na decoração da louça, escrevendo várias páginas da história da conhecida e extinta fábrica. A visitar até ao final do ano.