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sexta-feira, 25 de abril de 2008

25 de Abril



“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.”
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

sexta-feira, 21 de março de 2008

Chegou a Primavera

A Árvore da Vida, Gustav Klimt, 1909

Com a chegada da Primavera coincidem os Dias Mundiais da Árvore e da Poesia.

Somos como árvores
só quando o desejo é morto.
Só então nos lembramos
que dezembro traz em si a primavera.
Só então, belos e despidos,
ficamos longamente à sua espera.
(Eugénio de Andrade, "As mãos e os frutos", 1948)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

400 anos do Padre António Vieira


António Vieira

O céu 'strela o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e à glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.

No imenso espaço do seu meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.

Mas não, não é luar: é luz do etéreo.
É um dia; e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.

(Fernando Pessoa na "Mensagem")

domingo, 12 de agosto de 2007

Centenário de Torga

Se ainda estivesse entre nós, Miguel Torga completaria hoje 100 anos. Assinalando a data com um dos seus poemas:

"A UM NEGRILHO"

Miguel Torga (1907-1995)

Na terra onde nasci há um poeta.
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.

Esse poeta és tu, mestre da inquietação.
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Solidão na Cidade e Sonho

Ainda sobre o momento da cidade de Lisboa, este bonito poema de Ruy Cinatti (1915-86), intitulado "Solidão na Cidade e Sonho"

“O que eu desejo,
ó luarenta cidade”,
disse o rio,
“é que ninguém te toque.”

Imóvel, paredes mestras
afundando-se na sombra.
Ruas prolongadas,
abertas em campo grande
fechadas em poços negros,
por onde tirita, de febre,
um homem.

Eu, rio apreendido,
captado veio d’água
na rede do espírito
que deambula sem norte.

Qualquer parcela de mim
que pouco a pouco se eleva
no nevoeiro nascente
que do rio sobe
e a cidade cobre.

Nenhum pássaro cantou
na madrugada. Eu corri
contra a força de uma vela,
e tu, árvore imóvel.

Som a tempo, respondi
marulhar d’águas nas folhas
caindo no cais deserto
onde se aproxima um homem.

“O que eu desejo,
ó luarenta cidade”,
disse o rio,
“é que ninguém te toque.”