sábado, 22 de dezembro de 2007

Porreiro pá!

Enquanto os portugueses vão definhando entre o anúncio do aumento dos bens e serviços para o próximo ano e a subida exponencial das taxas de juro, José Sócrates vai apresentando a sua faceta mais cosmopolita à Europa, em entrevista ao El Pais e retrato no Libération. Não deixa de ser interessante esta aparente contradição entre a postura reservada e de reduzida exposição pública do primeiro-ministro no país, nomeadamente da sua família, e a atitude de aproveitamento mediático que o mesmo revela quando se encontra fora de portas, como no estafado número de jogging para consumo interno, praticado nas principais artérias das capitais que visita.
Esta necessidade de se dar a conhecer ao mundo, leva-o a confessar-se como provinciano sem complexos ao jornal francês: “mon père, architecte, s’est arraché à la misère, rappelle-t-il. C’est vrai, je suis un provincial, je me suis fait sans demander la permission à personne. Je n’ai pas d’alliés parmi les maîtres à penser portugais et l’aristocratie de gauche”.
Sobre a importância de ter carisma, isso não o parece incomodar. De acordo com o entrevistador espanhol, “sobre todo transmite seguridad en sí mismo. Nunca duda, se diría que siempre tiene razón. Y para reforzar la imagen: mandíbula prominente, traje tan bien cortado que parece a medida, zapatos de Prada”. Este pormenor dos sapatos Prada quase roça o ridículo, perante a caracterização da indústria do calçado em Portugal, quando afirma: “Pero hay mucha idea falsa hecha sobre Portugal. Exportamos más servicios que calzado, y es en el calzado, una industria tradicional, donde competimos en I + D”.
Esclarece, ainda, o diário El Pais que José Sócrates possui “una carrera sudada, trabajada y masticada paso a paso, en la que se adivina vocación, dinamismo, habilidad para moverse entre bambalinas y un prodigioso sentido comercial” (não tenho dúvidas quanto a este último aspecto), adiantando que “a Sócrates le gusta salir a correr por las calles de buena mañana y ponerse a sudar la camiseta. Le da lo mismo Luanda, Moscú o Washington. A 40 grados o a cinco bajo cero. Nada detiene al fondista solitario, empeñado quizá en mandar un mensaje de energía y optimismo a sus melancólicos y sosegados compatriotas”.
Elucida José Sócrates que “correr es un ejercicio fantástico, lo puedes hacer en cualquier sitio y viene muy bien para visitar las ciudades. Mejor que en coche, porque tienes más visibilidad…”.
Outra das suas características conhecidas é a do permanente exercício de charme junto da imprensa, embora distante das pressões exercidas por Sarkozy em França, de acordo com o relato do jornalista francês, que ainda não refeito da surpresa conta que “quelques jours auparavant, coup de téléphone de l’une des proches de José Sócrates : «Jean, qu’est-ce que tu veux manger ?» Passé le premier moment d’étonnement - imagine-t-on l’Elysée s’enquérir des goûts culinaires d’un journaliste ? -, il faut se rendre à l’évidence, ce n’est pas une blague”. E o deslumbramento prossegue: “mais son chef-d’œuvre restera incontestablement le traité de Lisbonne, qu’il n’a pas laissé saboter par la Pologne ou la Grande-Bretagne. Pourtant, au départ, il aurait préféré que cette négociation périlleuse aille à d’autres. L’intelligence politique de Sócrates a consisté à refuser de réunir les ministres des Affaires étrangères pour renégocier, ce qui risquait de tout faire déraper : tout est resté au niveau technique des juristes, chargés de faire de la dentelle avec la défunte Constitution pour reprendre toutes ses innovations. S’il ne cache pas l’admiration qu’il voue à Angela Merkel qui l’a beaucoup aidé, son modèle est outre-Manche”.
Sem surpresas, o pragmatismo ideológico do primeiro-ministro emerge no artigo: “lui-même se revendique d’un socialisme moderne. «J’ai toujours été social-démocrate, même pendant la révolution, en 1974.» Il ne se reconnaît absolument pas dans le socialisme à la française qu’il juge majoritairement dépassé et ringard : il n’hésite pas à proclamer que «l’affirmation du parti socialiste se fait au centre». «Qu’est-ce qui différencie la gauche de la droite ? L’égalité. Mais pour moi la première valeur, celle qui l’emporte sur les autres, c’est la liberté. Je suis donc un démocrate socialiste.»
Uma última nota para o tom sentimental e intimista como José Sócrates termina a entrevista ao El Pais. Um registo que não é utilizado em Portugal, mas cujo protagonista tem a perfeita noção da sua repercussão, atingindo com isso efeito idêntico: “¿Planea estar otra legislatura al frente del país? Planeo estar hasta el final de esta legislatura. Después veremos (…) ¿De verdad no se va a presentar de nuevo? Ya veremos, hay dos años por delante, y eso es una eternidad en política. ¿Ha visto que mis compatriotas tienen de mí una sensación errada? Dicen que soy poco hablador…”.

Ainda persistem dúvidas sobre a qualidade do actor?


El Pais (ver aqui entrevista integral)
Libération (ver aqui artigo integral)

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