quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

As outras vítimas das cheias

Após dois dias de ensurdecedor silêncio (apenas interrompido na presença protectora do ministro da Administração Interna, em visita ao concelho), o presidente da câmara municipal de Loures, Carlos Teixeira, e restantes responsáveis municipais ensaiaram durante o dia de ontem a táctica da vitimização, tentando sem sucesso, converter críticas construtivas a falhas na prevenção em ataques à eficácia dos trabalhos posteriores, realizados pelos trabalhadores municipais e por muitos populares, que no mais elevado espírito comunitário tentaram remediar as situações dramáticas de muitos dos atingidos pela cheia desta semana.
Todavia, ficou sem resposta, na reunião de ontem do executivo municipal, a demonstração de que o impacto da cheia na baixa de Sacavém poderia ter sido minimizado se a câmara municipal não tivesse incorrido em desleixo na falta de limpeza da ribeira do Prior Velho e, mais gravemente, não tivesse consentido na deposição irresponsável de terras, oriundas de uma construção nas imediações, sem qualquer talude ou muro de suporte.

Na foto superior de 1 de Agosto de 2007 pode ver-se a deposição das terras, junto ao pequeno e antigo muro da ribeira do Prior Velho, obstaculizando a limpeza da linha de água e ameaçando o seu entulhamento.

Nas fotos inferiores de 19 de Fevereiro de 2008 pode constatar-se que a natureza, infelizmente, encarregou-se pela força da água de corrigir a conduta de incúria municipal. Atente-se agora na distância das terras ao referido muro. Todas as toneladas de terra e pedra que aqui se encontravam foram arrastadas pelas condutas pluviais e pela baixa de Sacavém.

Decorridos cinco meses após a denúncia do problema a maioria socialista nada fêz para o resolver. Nem mesmo depois da cheia de 30 de Setembro, que já havia afectado a baixa de Sacavém. Anúncios de relatórios e criação de grupos de trabalho já existiam, tal como agora se repetem depois de nova tragédia, associados a intenções de construção de bacias de retenção, sabe-se lá para quando ou quantas mais cheias serão necessárias para finalmente vermos a solução. Agora, até supostamente ocorreu um embargo, sem que tenha até ao momento havido prova do mesmo, apesar de solicitada. Anúncios de obrigar o responsável pela deposição das terras a retirá-las é que não houve ...
Por este tipo de práticas de desresponsabilização e informação enganosa à população, não é de estranhar a seguinte informação municipal sobre prevenção de cheias, inserta no site da própria câmara municipal: “os trabalhos de limpeza de linhas de água e passagens hidráulicas são também indispensáveis para o bom escoamento das águas da chuva, tornando-se por isso necessário sensibilizar todas as entidades envolvidas nesse trabalho. Contudo, essas intervenções nem sempre são efectuadas no tempo adequado, resultando em inundações que se repetem ciclicamente nos mesmos locais. Apesar disso, o rio Trancão e os seus afluentes são frequentemente desobstruídos pelas entidades municipais de modo a manterem-se as boas condições de fluidez”. Nem surpreende a declaração hipócrita de que "todos os orgãos municipais deveriam estar unidos e colaborar para arranjar soluções para estes problemas", proferida pelo vereador das Obras Municipais, João Pedro Domingues, quando o PS, com a abstenção da CDU, votou contra a proposta que preconizava:

a) criação de um grupo de trabalho composto por um Vereador de cada partido político e por representantes dos Serviços Municipais de Protecção Civil e dos Serviços Municipalizados para apurar, no prazo máximo de 30 dias, as causas que tenham contribuído para o agravamento das cheias e avaliar o desempenho do plano de emergência local;
b) solicitar com carácter de urgência uma audiência ao Sr. Ministro do Ambiente, Nunes Correia, que tutela o Instituto da Água, entidade que é responsável pela limpeza das linhas de água e gestora do Projecto de Controlo de Cheias da Região de Lisboa (PCCRL), para uma avaliação conjunta das causas das inundações e dos procedimentos a desenvolver, de forma a evitar-se que situações idênticas venham a ocorrer no futuro.

Este é infelizmente o comportamento de quem, perante a adversidade e a obrigação de prestar contas, prefere acolher-se no papel de vítima.

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