sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Lisboa em Festa

Um conjunto de compromissos fora de Portugal não me permitiu actualizar o blog com a regularidade habitual, nomeadamente numa semana que foi bastante rica em acontecimentos. Por uma questão de oportunidade temporal começo pela última cimeira europeia.
O sucesso político da presidência portuguesa do Conselho Europeu, na obtenção do acordo sobre o designado “Tratado de Lisboa”, é inversamente proporcional ao conhecimento da sua letra pelos portugueses e, consequentemente, das implicações futuras para Portugal.
As semelhanças com a anterior proposta de Constituição Europeia poderiam numa análise precipitada dispensar um estudo aprofundado. Mas, assim como a Constituição rejeitada nunca chegou, verdadeiramente, a ser publicitada e discutida no nosso país, também receio que o tratado de Lisboa siga o mesmo caminho. E não será por consequência de haver ou não referendo, mas sim pelas circunstâncias ditarem esse tipo de comportamento.

O clima de euforia criado na mesma noite, entre uma flûte de champanhe e um "porreiro, pá", turva a indispensável análise entre os custos e os benefícios para um pequeno e periférico país como Portugal. Poder-se-á argumentar que perante exigências antigas, como as francesa, inglesa e polaca ou de última hora, como a italiana, o mais importante era recolocar a composição europeia a andar. E se Lisboa ficar conhecida como a locomotiva, melhor. Afinal, este foi sempre um propósito anunciado pela presidência portuguesa, decorrente dos insucessos do Tratado de Nice e do projecto fracassado de Constituição Europeia. Mas terão os portugueses noção que Portugal não mais ocupará a presidência da União Europeia neste figurino, pois o Conselho Europeu elegerá, por maioria qualificada, um presidente permanente por um mandato de dois anos e meio, passível de uma renovação? Saberão que a Comissão Europeia, a partir de 2014, deixará de ter um comissário por Estado-membro, passando a ter um número de comissários equivalente a dois terços do número de Estados-membros? Ter-se-ão apercebido que Portugal perderá dois dos seus deputados, passando a ter vinte e dois deputados?
A construção europeia não se faz sem sacrifícios. Mas será difícil de explicar e de entender que os sacrifícios se façam somente à custa dos mais pequenos, quando constatamos que o texto final sobre a composição do Parlamento Europeu foi alterado para 750 deputados+Presidente, como forma de dar acolhimento à pretensão de paridade da Itália, concretizada em mais um deputado. Mesmo perante a oportunidade de fazer a festa em Lisboa!...

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