A vaia ameaça instalar-se de vez como um instrumento de protesto, junto da classe política. Menosprezar este fenómeno será um erro. Confundi-lo com mobilizações partidárias organizadas, com a eventual intenção de o desvalorizar publicamente, será não só deselegante como irresponsável. Vem esta consideração a propósito das recentes vaias públicas com que o primeiro-ministro, José Sócrates, tem sido brindado em diferentes actos públicos e com as suas declarações autistas, proferidas no Debate da Nação, de reduzir tais manifestações a grupelhos de militantes comunistas com objectivos pessoais e persecutórios.Durão Barroso foi também vaiado na cerimónia de inauguração do novo Estádio da Luz. Mas é necessário recordar que, já antes, João Soares, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, tinha sido alvo de uma monumental vaia na final de uma prova de ténis no Pavilhão Atlântico e que, mais recentemente, o ministro Silva Pereira escapou-se de boa no Open do Estoril, ao ter oportunamente concedido a Eusébio o privilégio de entregar o troféu ao vencedor, ao aperceber-se de que o público presente se preparava para lhe retribuir uma valente vaia. Presume-se que os comunistas não estivessem em grande número nos referidos eventos.
Recordo também que em meados da década de noventa a obra do gasoduto atravessava terrenos de pequenos e médios proprietários, de forma selvática e dizimadora, e sem que fossem dados ouvidos a pequenas sugestões de alteração no seu traçado, formuladas pelos Presidentes dos municípios e pelos próprios proprietários atingidos. A obra estava a progredir, com enorme contestação popular, nos distritos de Leiria e Aveiro, derrubando árvores e construções sem grande contemplação. Nessa época, o governo era do PSD, que não quis desautorizar os dirigentes da empresa pública, responsável pela obra. Enveredou pelo caminho mais fácil, acusar os populares de serem um grupo de agitadores organizado, provavelmente comunistas. A história repete-se e, provavelmente, com os mesmos maus resultados. Pior do que uma pessoa se sentir lesada é ser, ainda, rotulada de agitadora. Nessa época, o PS e o CDS/PP capitalizaram nestes círculos eleitorais o voto dos descontentes. Agora, seria o momento de o PSD o fazer. Mas para isso acontecer era necessário que os mais desfavorecidos ou os menos protegidos da sociedade portuguesa sentissem que tinham um interlocutor, genuinamente interessado e atento, ao seu lado. Como noutros tempos o PSD assumiu, nas suas vertentes social e humanista. É isto que faz falta. Amanhã, pode ser tarde. Amanhã, pode ser o primeiro dia do resto da vida do Partido Social Democrata.







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